FAROCKI: DESTRINCHANDO IMAGENS


A mostra Farocki: Destrinchando as Imagens, em cartaz no CINUSP Paulo Emílio entre os dias 01 e 17 de fevereiro, exibirá 11 filmes essenciais da obra do cineasta alemão Harun Farocki, famoso por seus documentários e por sua radicalidade. 

No âmbito central de sua obra há o exercício metalinguístico, quase científico, de decifrar a as imagens. Nessa tarefa, o diretor mira sua atenção para todo tipo de imagem disponível. Desde aquelas captadas pelo olho de sua câmera, passando por reuniões de negócios, às sigilosas imagens das câmeras de vigilância de prisões americanas, e até às imagens captadas pela ponta de um míssil tele-guiado. Farocki nos apresenta um pouco do tratamento dispensado à imagem para fins militares e civis.

É sobre todo o infinito arquivo de imagens produzidas a todo momento em nosso tempo, que Farocki se debruça.  E é a partir das imagens desveladas que ele se insere em um debate político, levantando questões sobre o consumo, a vigilância, a produção e a destruição, a indústria, a economia, a guerra e a civilização. 

Farocki constantemente exerce um processo de “destrinchar” as imagens. A todo momento despedaça trechos dos mais diversos registros (da película ao formato de vídeo, e mais recentementeàs realidades virtuais de vídeo-games e simuladores) unindo-ose comparando-os, descobrindo suas relações, encontrando traços que permeiam o virtual e o real. E, de outra maneira, ex-traindo as imagens de suas “trincheiras”. Buscando as imagens ocultadas nas trincheiras dos campos de batalha, das prisões, das televisões, das indústrias e dos exércitos e trazendo-as para a ilha de montagem, o laboratório de Farocki, de onde emergem seus filmes, com temas minuciosamente estudados, expostos aos nossos olhares.

O diretor, ao longo de suas produções, adotou diversas linguagens. Explorou a ficção no início de sua carreira em curtas como Fogo que Não se Apaga, provocando estranhamento e reflexão a respeito da produção de armamentos bélicos. Majoritariamente, no entanto, dedicou-se à linguagem documental, em suas diversas formas. Seu trabalho alterna entre o cinema direto, o documentário expositivo, o filme-ensaio ou muitas vezes num híbrido que aproxima seus filmes da linguagem da videoarte e da videoinstalação.

Por vezes extremamente historiográfico, Farocki fez filmes inteiros com base em materiais de arquivo, provenientes das mais diversas fontes, como imagens de guerras e trechosselecionados de diversos filmes da história do cinema. Em filmes como A Saída dos Operários da Fábrica e Imagens da Prisão, Farocki adota esta linguagem, misturando imagens de câmeras amadoras, do cinema e de câmeras de vigilância para descobrir a essência do retrato dos operários ou dos prisioneiros nas imagens produzidas ao longo do tempo. Já em Videogramas de uma Revolução, a partir de um banco de 200 horas de material proveniente de câmeras amadoras e da programação da televisão estatal romena, ele busca contar a história da transição de poder ocorrida na Romênia em 1989, explicitando o papel que a televisão cumpriu neste processo revolucionário. 

Em alguns momentos, Farocki escolheu levar sua própria equipe a campo para captar imagens que pudessem elucidar aspectos da vida contemporânea. Em filmes como A Imagem, sua câmera paira silenciosamente ao lado de um ensaio da Playboy, fazendo um retrato completo da construção da imagem da mulher nua para a revista. Esta, em seu processo de transformação em imagem, é transformada em objeto.

Aproximando-se da video-instalação, Farocki utiliza na montagem de muitos de seus filmes o recurso de dupla projeção, exibidindo duas telas em um mesmo quadro com uma leve sobreposição, dispostas na diagonal. Cria-se através dessa dupla projeção uma nova experiência, altamente reflexiva, que aproxima o espectador do processo de edição das imagens de um filme e o permite escolher entre as duas imagens. Na dupla projeção há, para além da relação construída entre imagens que se sucedem, a simultaneidade destas, que permite uma análise singular de sua totalidade.

Dando um pequeno gosto da filmografia de um diretor prolífico, que produziu mais 100 obras audiovisuais ao longo de sua vida, a mostra “Destrinchando as Imagens”, feita em parceria com o Instituto Goethe, acontece paralelamente à exposição “Programando o Visível” que exibirá seis video-instalações de Harun Farocki no Paço das Artes e é uma oportunidade para o espectador experienciar a produção deste artista num circuito para além das salas de cinema, onde a imagem e o meio que ela é projetada adquirem novo significado. 

Ayume Oliveira e Mauricio Battistuci