EM CARTAZ

NATUREZA ADENTRO


O cinema, produto da industrialização e cuja realização e exibição dependem inerentemente do aparato mecânico, está intimamente ligado à cidade. Podemos notar também que a história do cinema é majoritariamente marcada por narrativas urbanas. No entanto, há produções que, cientes disso, retiram seus equipamentos das metrópoles e partem em direção a selvas, rios, mares e montanhas, captando a paisagem que não apenas serve de fundo para suas histórias, mas principalmente altera o desenvolvimento das tramas e a trajetória das personagens. O CINUSP Paulo Emílio apresenta de 19 de junho a 14 de julho a mostra NATUREZA ADENTRO, que pretende explorar, em diferentes perspectivas, o conflito do ser humano com a natureza e, assim, recuperar um dos primeiros e grandes fascínios provocados pelo cinema: a possibilidade de se viajar para realidades distantes.

Nestes filmes, podemos notar a manifesta vontade por parte das personagens de fugir da cidade. No entanto, as angústias e os problemas que motivam a fuga normalmente acompanham as personagens; é possível deslocar-se geograficamente, mas não escapar de si mesmo. Em um apartamento numa metrópole ou numa clareira em uma floresta tropical, persistem os conflitos humanos, de modo que a  fuga não parece surtir o efeito pacificador idealizado. Desse modo, tais filmes não apenas conduzem suas personagens (e os espectadores) por dentro de florestas, beiras de lagos e grandes descampados, mas também para o seu próprio interior, o que os leva a questionar sua experiência na cidade. Vemos isso em filmes como Stalker, O Ornitólogo, Eternamente Sua e Livre, cuja dramaturgia faz da natureza a catalisadora de conflitos que antes estavam latentes. Uma vez desvelada a persistência do mal-estar inicial, gera-se uma consciência a ser retrabalhada.

A mostra reúne filmes de grandes realizadores da história do cinema, como Andrei Tarkovsky (Stalker), Werner Herzog (O Homem Urso), Agnés Varda (Sem teto nem lei, em 35mm) e Ingmar Bergman (Mônica e o Desejo). Dos filmes contemporâneos, a mostra passa por diretores como Apichatpong Weerasethakul (Eternamente Sua), Ciro Guerra (O Abraço da Serpente), Naomi Kawase (Floresta dos Lamentos), bem como Gus Van Sant (Gerry) e Alejandro González Iñárritu (O Regresso). Escolhemos também dois filmes do cinema nacional para compor a mostra, Lavoura Arcaica  (em 35mm), de Luiz Fernando Carvalho, e Ex Isto, de Cao Guimarães.

Nesses filmes, as imagens deslumbrantes da natureza não são um fim em si mesmas, mas carregam toda a contradição e a tensão que surgem entre o indivíduo e o espaço e que ecoam nas relações humanas. Ainda que muitos filmes se relacionem com o cinema contemplativo (o uso de planos-sequência e câmera fixa ou longos e lentos travellings), tal escolha não é meramente uma questão formalista, mas sim uma maneira de explorar outros ritmos e tempos no cinema, em contraposição à rapidez relacionada à alta produtividade e à eficiência dos ambientes urbanos.

Faz-se necessário voltar o pensamento para as questões urbanas, que não podem ser solucionadas simplesmente com a negação da cidade. Nos filmes em que há um movimento de afastamento e reaproximação da cidade, a natureza atua como antítese, espaço provocador de transformação, introspecção e epifania. Ela não tem o intuito de negar a experiência citadina, mas de ampliar seus horizontes.

                                                              

Ayume Oliveira

Luca Dourado

Rena Zoé