DOCES VAMPIROS


Ao longo da história do cinema, o mito do vampiro foi abordado de inúmeras maneiras, compondo um mosaico de países, épocas, gêneros e estilos. Desde criaturas pútridas e fétidas oriundas do folclore e da literatura do século XVIII, até o aristocrático e poderoso Drácula, passando por vampiras lésbicas e jovens contemporâneas, vampiros negros e asiáticos, a representação cinematográfica do vampiro, arraigada no imaginário popular, sobrevive ao longo das décadas, reinventando-se e revigorando o interesse do público. Essa variedade de filmes é apresentada na mostra Doces Vampiros, em cartaz no CINUSP de 02 de abril a 04 de maio, com obras que buscam atrair não somente o público que já tem interesse pela figura vampiresca, mas também espectadores que queiram conhecer novos e instigantes filmes.

Para aprofundar as questões tratadas, a mostra conta com dois debates: no dia 05 de abril, a representação do vampiro no cinema será debatida com Leandro Cesar Caraça, mestre pela UNICAMP e pesquisador da história do cinema de horror. No dia 17 de abril, o cinema de horror asiático e a figura do vampiro será debatido com Cláudio Augusto Ferreira, doutorando da ECA-USP e pesquisador de cinema sobrenatural japonês.

Uma das possíveis razões para a longevidade da figura do vampiro está no fato de ela lidar com uma inquietação básica da humanidade, a respeito da fronteira entre a vida e a morte. O vampiro é um ser que borra essa fronteira, transgredindo as leis da natureza. A origem do mito remonta aos surtos de peste vividos na Europa, de modo que as primeiras representações do vampiro o situam como um ser pestilento e aberrante, capaz de contaminar os vivos ao se alimentar de seu sangue. Muitas informações dispersas a respeito da lenda foram reunidas no romance seminal de Bram Stoker, Drácula, que condensou para o Ocidente o sistema de crenças essenciais do vampirismo. O livro, que completou 120 anos em 2017, rendeu inúmeras adaptações cinematográficas e continua inspirando narrativas ao redor do mundo.

Fruto do expressionismo alemão, Nosferatu (1922) é uma dessas adaptações. A expressividade original da obra tornou a personagem do Conde Orlok e sua postura nobre influente na concepção de vampiros até os dias atuais, ainda que ele esteja mais próximo da representação antiga do vampiro, monstruoso e repugnante. Com Drácula (1931), há uma transformação significativa, ocorrendo a popularização da figura de um vampiro mais palatável e sedutor, dadas as demandas comerciais do cinema hollywoodiano. O filme foi produzido pela Universal Studios e é parte de um período fértil para as produções de horror da companhia, com uma interpretação icônica de Bela Lugosi que ajudou a fomentar o aparecimento de outros vampiros nas telas. Em Nosferatu: O Vampiro da Noite (1979), por meio de paisagens estáticas, música intimista e um vampiro trágico, é construída uma atmosfera etérea de horror. Nesta adaptação, o legado expressionista de Murnau é recuperado à luz da proposta de revitalização do cinema alemão nos anos 70. Em Drácula de Bram Stoker (1992), considerada a versão mais fiel ao romance, ocorre uma humanização do vampiro, personagem complexo e também sujeito às paixões humanas. Aqui há uma mistura de gêneros cinematográficos, indo da história de amor ao horror, marcando na própria imagem do Conde Drácula as transformações possíveis, passando da velhice ao vigor do homem adulto, incluindo metamorfoses animais.

A Hammer Films, produtora célebre de filmes de horror entre os anos de 1955 e 1979, período em que lapidou um estilo muito particular, com cenários e figurinos suntuosos, cores chamativas e atuações grandiloquentes, está contemplada na mostra em um noitão de sexta-feira 13. Serão exibidos os sete primeiros filmes (de um total de nove) da clássica sequência de Drácula, com Christopher Lee no papel do conde e Peter Cushing como Van Helsing, começando às 19h da sexta e terminando às 5h do sábado. Os filmes, que podem ser vistos separadamente, marcam uma inflexão no cinema de horror, deixando a caricatura e a sugestividade dos filmes de vampiro anteriores, especialmente a partir do legado dos Monstros da Universal, em direção a uma expressão mais sanguinolenta, em que o vermelho vivo do Technicolor cumpre papel fundamental. O movimento em direção à violência explícita e ao gore é percebido também no italiano A Noite dos Demônios, em que os mortos-vivos, ao serem atravessados por estacas de madeira, apodrecem de forma acelerada, num uso bastante gráfico do terror escatológico.

As imagens tradicionais dos vampiros sofrem alterações significativas nos anos 1960, sob influência dos movimentos contraculturais. O vampiro passa a apresentar uma dimensão erótica, ligado ao prazer e à crueldade, à paixão e à morte, subversivo em relação à ordem burguesa do trabalho e do ambiente doméstico e familiar, à heteronormatividade e ao protagonismo masculino. Le Viol du Vampire, de Jean Rollin, marca a passagem em direção ao erotismo, com destaque para o protagonismo feminino e uma preocupação com a memória e o deslocamento temporal, impressa por meio de sua montagem fragmentada. Na década de 70, a junção de temáticas sobrenaturais e sexuais tem ainda mais expressividade. Vampyros Lesbos, dirigido pelo espanhol Jesús Franco, é realizado junto a uma onda de filmes dos anos 70 que tematizam vampiras lésbicas, com gênese na novela Carmilla (1872), de Joseph Sheridan Le Fanu. Nesse filme, Franco abandona seu estilo gótico e barroco em direção a uma estética minimalista, que inaugura o período mais artístico do diretor. Sangue para Drácula, produzido por Andy Warhol e dirigido por Paul Morrisey, inverte a lógica do vampiro predador de virgens vulneráveis, mostrando um conde Drácula decrépito ante jovens sexualmente liberadas. O filme faz uma mordaz crítica de classe, satirizando a afetação dos personagens aristocráticos. As Sete Vampiras, de Ivan Cardoso, é um representante brasileiro que cruza a temática vampiresca com a tradição das pornochanchadas, em um erotísmo também típico dos anos 80.

Blacula traz o primeiro vampiro negro do cinema, num blaxploitation cultuado, que popularizou na cinematografia vampiresca o enredo da busca pela amada reencarnada. A representatividade racial só chega ao mainstream duas décadas depois, com Blade, o Caçador de Vampiros, que terá sessão especial, seguido pela sequência dirigida por Guillermo del Toro, Blade II. Estes filmes são adaptações de HQs, como 30 Dias de Noite, que relaciona o vampirismo a condições climáticas do Alasca, que permanece dias sem o nascer do sol durante o inverno. São filmes que mesclam o horror e a ação, campos férteis para os filmes de vampiro.

Gêneros menos evidentes, como a comédia, também exploram o tema. É o caso de A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski, uma sátira aos filmes de terror que alcançou status de cult e abarca todos os detalhes frequentes das produções vampirescas, como crucifixo, alho e ausência de reflexo no espelho. A Hora do Espanto (1985) é um clássico jovem dos anos 80, marcado pela pelos avanços nos efeitos especiais e pela estética dessa década. Fome de Viver também é um representante oitentista e se vale da atmosfera gótica, em que David Bowie e Catherine Deneuve adensam a imagem de vampiros cool com óculos escuros numa pista de dança enfumaçada. O protagonismo feminino, à frente e atrás das câmeras, está presente em filmes como Quando Chega a Escuridão, da vencedora do Oscar Kathryn Bigelow, que mescla terror e western em uma trama de vampiros deslocados que mais parecem foras-da-lei.

O cinema contemporâneo desafia representações clássicas do vampiro, tanto em aspectos estéticos quanto políticos, ao mesmo tempo em que aproxima o sobrenatural do cotidiano. Em Garota Sombria Caminha Pela Noite uma jovem vampira iraniana perambula pelas noites de skate vestindo uma burca preta, o que sugere de maneira provocativa a ressignificação de um símbolo religioso controverso, transformando-o em empoderamento feminino, além disso o filme também flerta com o western e filmes de jovens delinquentes dos anos 50. Crepúsculo é a guinada mais fortemente engajada, e uma das mais bem sucedidas, em aproximar o vampiro do universo teen. A saga atualiza o mito do vampiro para a contemporaneidade, constituindo um fenômeno cultural que expandiu o interesse de públicos jovens e é responsável por uma subsequente safra de obras com vampiros que, longe de gerarem a antiga repulsa, provocam um desejo de aproximação.
Amantes Eternos retrata um casal de vampiros à deriva, melancólicos frente ao vislumbre da eternidade, que adquirirem sangue de maneira quase terceirizada, sem o primordial contato corporal. São os lentos e longos planos que pontuam o deleite desse desfrute. É marcante o tom de ironia, bem como os personagens inadequados e estranhos ao mundo, características do diretor americano Jim Jarmusch. A sessão das 19h do dia 05 de abril será seguida de debate sobre a representação do vampiro no cinema com Leandro Cesar Caraça.

Vampire (2011), primeiro filme de Shunji Iwai rodado fora do Japão, complexifica o comportamento predatório do vampiro ao apresentar um protagonista envolto por melancolia diante de jovens inclinadas ao suicídio, numa discussão profunda do mito da imortalidade em face do desejo de autoaniquilação. No contexto asiático, a curadoria traz ainda o sul-coreano Sede de Sangue, de Park Chan-wook, que apresenta um vampiro com um passado clerical, e reúne em na mesma personagem uma natureza dúbia, em um constante embate de suas crenças católicas e seus instintos vampirescos. E Mr. Vampire, clássico do subgênero jiang shi, de vampiros chineses, mistura o mito do vampiro com artes marciais e um teor cômico. No dia 17 de abril, a sessão das 19h será seguida de debate sobre o cinema de horror asiático e a figura do vampiro com Cláudio Augusto Ferreira, doutorando da ECA-USP.

O CINUSP convida todo o público a se deixar seduzir, assombrar e fascinar pelas múltiplas faces do vampirismo no cinema. Boas sessões!

 

Joyce Rossi
Rena Zoé
Thomás Ceschin