EM CARTAZ

TEMPOS CRÍTICOS NO NOVO CINEMA ALEMÃO


De 04 a 30 de junho o CINUSP realiza a mostra Tempos Críticos no Novo Cinema Alemão, contemplando uma seleção especial de filmes deste movimento de inovação do cinema alemão que ocorreu da década de 1960 até o começo da década de 1980.

Os jovens realizadores da época respondem com agressividade e deboche à ideologia das gerações anteriores. Embora com estilos particulares, a fissura histórica e temporal causada pelos horrores da guerra, o trauma do nazismo e a culpa histórica irrompem invariavelmente em seus filmes. O tempo fílmico é perturbado de formas distintas, podendo ser alongado, com uso de planos-sequência e repetições, ou acelerado e fragmentado, com dissonâncias entre trilha sonora e imagens, uso de cartelas e telas pretas. Realiza-se ainda uma mescla expressiva de cinema com outras artes, como literatura, teatro e ópera. Em termos dramáticos, os personagens muitas vezes sucumbem a uma violência repentina e lidam com as instituições com desconfiança.

A mostra conta com algumas sessões especiais. O Noitão da Perturbação acontece das 19h de sexta-feira, 15 de junho, até as 6h de sábado, 16 de junho. A seleção privilegia filmes que trazem estados de consciência alterada por razões que vão desde o uso de drogas, transe hipnótico até as alucinações da esquizofrenia. Em 07 de junho às 19h e em 27 de junho às 16h ocorrem sessões de curtas com obras experimentais de importantes cineastas do período, realizadas no começo de suas carreiras. Há ainda uma sessão especial de Hitler - Um Filme da Alemanha, experiência fílmica única de 7 horas de duração, a começar excepcionalmente às 14h no dia 22 de junho.

O cinema alemão, durante o período nazista, sofreu uma interrupção das instigantes experiências estéticas realizadas no começo do século XX pelo movimento expressionista. Nos anos 1930 e 1940, foi ferramenta eficiente de propaganda estatal, e produções moralizantes compõem grande parte das produções dos anos 1950, num contexto de reação conservadora. Um contraponto acontece nos anos 1960, período marcado por levantes da juventude ao redor do mundo. Em 1962, surge o Manifesto de Oberhausen, documento assinado por 26 jovens cineastas reivindicando novas condições de produção e exibição de filmes. É parte de um movimento mais amplo de reestruturação do cinema alemão, com financiamento estatal, novas salas de cinema, criação de cursos universitários e publicações impressas sobre o tema. Apenas alguns proponentes do manifesto seguiram carreira no cinema, como Alexander Kluge, Edgar Reitz e Peter Schamoni, mas a eles se somam outros diretores da nova geração que promovem uma renovação estética radical ao longo dos anos seguintes. Eles reciclam a herança do expressionismo alemão, da ópera wagneriana e do teatro brechtiano numa miscelânea crítica.

Alguns autores presentes na mostra merecem destaque, com atenção às suas inclinações particulares. Werner Herzog se interessa pelos limites da sanidade humana, com personagens que tomam o caminho da loucura e dos delírios de poder. A perturbação é patente também na filmografia de Werner Schroeter, que trabalha com tempos cíclicos e dissonâncias entre imagens e sons, abordando frequentemente personagens femininas sob o peso do trauma. Wim Wenders trabalha com dilatação temporal e perambulação de personagens pelo espaço urbano. Rainer Werner Fassbinder se inspira no melodrama clássico ao construir suas tramas protagonizadas por personagens oprimidas e marginalizadas.

É importante destacar a abertura para artistas LGBTs e mulheres nesse período, vozes emergentes dentro dos movimentos de maio de 68. Cineastas como Helma Sanders-Brahms e Helke Sander, envolvidas diretamente no movimento feminista nascente à época, retratam os impactos políticos sobre as vidas domésticas de personagens femininas. Margarethe von Trotta tem uma filmografia substancial que dá protagonismo a mulheres fortes, sejam fictícias ou personagens históricas. A estética kitsch perpassa obras de Fassbinder, Rosa von Praunheim e Ulrike Ottinger, trabalhando a deformidade da alta cultura, em ataques incisivos contra os valores burgueses.

O CINUSP convida todo o público a confrontar a crise humana escancarada pelo Novo Cinema Alemão, vivenciando experiências intensas de manipulação do tempo fílmico e revelação de novas formas de se fazer, ver e refletir o cinema. Boas sessões!

Joyce Rossi
Rena Zoé